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“Chef” e a flexibilidade para mudanças – analisando o personagem a partir da OPC

14/12/2021 Categoria: Cinema & Psicologia

Quem nunca se sentiu insatisfeito com o próprio trabalho? Quem nunca se sentiu cansado de fazer a mesma coisa repetidas vezes, sem poder inovar e tendo de se submeter às vontades de outras pessoas, deixando de lado os próprios valores? E quem nunca sentiu vontade de se indignar com aqueles que, apesar de todo nosso esforço, resolvem ridicularizar nosso trabalho? Qualquer uma dessas situações é suficiente para repensarmos nossa carreira, e é exatamente isso que acontece no  filme “Chef”.

Estrelado por Jon Favreau (conhecido por dirigir e atuar em grandes filmes da Marvel), o longa conta a história de Carl Casper, o chef de um famoso restaurante em Los Angeles, que volta e meia discute com o dono do estabelecimento sobre sua vontade de inovar no menu. Talentoso, criativo e de temperamento explosivo, Carl sente a vontade de expressar suas habilidades por meio da criação de novos pratos, que nem sempre tem um bom reconhecimento da clientela como as suas já conhecidas receitas de sucesso, o que acaba preocupando o dono do restaurante.

Apesar de amar o que faz e tratar seu trabalho com muito carinho e seriedade, Carl se sente muito insatisfeito com as condições impostas por seu chefe. Mesmo sendo uma preocupação compreensível do ponto de vista empresarial, a atitude do dono do restaurante impede que Carl se realize no seu trabalho e toque a vida das pessoas do jeito que gostaria, o que eventualmente lhe traz frustrações e problemas com colegas, sua ex esposa e seu filho.

Um agravante dessa situação estressora são algumas características da personalidade de Carl, que muitas vezes é inflexível em relação a opiniões externas sobre mudanças na sua forma de exercer suas atividades, sendo muito confiante nas próprias capacidades, exercendo crenças de autoeficácia positivas e portanto com dificuldades de receber ajuda de outras pessoas. Essas características se tornam muito evidentes quando, em uma briga com seu chefe, Carl diz que “Precisa de espaço, não de orientação”.

A inflexibilidade e a rigidez afetam o engajamento de Carl no trabalho, o qual passa a não ser mais prazeroso, e também o impede de pensar em outras formas de conversar com seu chefe sobre sua vontade de inovar. A flexibilidade psicológica é importante no campo do trabalho, ao passo que diz respeito ao sujeito conseguir alcançar suas metas de forma funcional, mesmo em situações desafiadoras ou não desejáveis por ele (NOVAES; FERREIRA E VALENTINI, 2015). Nesse raciocínio, o desenvolvimento de um repertório maior no campo da flexibilidade psicológica poderia ajudar Carl a resolver sua insatisfação no trabalho de forma planejada, sem agressões ou maior sofrimento a outras pessoas.

Outra questão importante sobre o protagonista é que sua dedicação pelo trabalho o faz ignorar outros aspectos importantes da sua vida, como a relação com seu filho. Na maioria das vezes em que estão juntos, seja no cinema ou no parque, Carl não lhe dá a devida atenção, direcionando seu foco para coisas relacionadas à cozinha e permanecendo alheio ao que está acontecendo ao seu redor, em especial ao desenvolvimento do seu filho.

Em uma determinada ocasião, após se submeter aos desejos do seu chefe e lançar um menu mais tradicional, Carl recebe uma dura avaliação de um renomado crítico de gastronomia da cidade, alegando que seu trabalho já não é mais o mesmo de anos atrás, fato que o deixa furioso. Depois de algumas discussões nas redes sociais entre o chef e o crítico viralizarem, além de um vídeo em que Carl perde o controle no salão do restaurante, ele se demite por perceber que naquele emprego não teria espaço para exercer sua criatividade. Após conversar com a recepcionista, ela o alerta a viver outras coisas que realmente o fariam feliz, sobretudo aproveitar o tempo livre daquele momento de desemprego para se aproximar do filho.

Carl sempre teve como valor pessoal a liberdade, e norteou sua atuação com base nela. Ao passar a ser limitado pelo chefe, seu trabalho entrou em crise com a importância que ele dava para a sua liberdade criativa. Mesmo depois da demissão, ele ainda não sabia muito bem o que fazer, contando que se sentia completamente perdido, sendo justamente nessa hora que sua rede de apoio atua para que ele realize seu trabalho da forma que sempre quis.

Depois de sua ex-esposa dar a ideia de criar um food truck, ele resolve aceitar a sua ajuda e inicia um novo negócio, com o qual servirá comidas mais rápidas e simples, porém diferenciadas e apetitosas. Essa cena é de muita importância pois mostra Carl aceitando auxílio de diversas pessoas diferentes para conseguir realizar seu sonho.

É nesse momento que o cozinheiro realiza uma transição de carreira, deixando de ser empregado para ser um empresário autônomo, passando a cozinhar dentro de um veículo, que muda constantemente de lugar e está sempre na rua, em meio aos clientes. Esse processo de mudança exigiu de Carl um certo nível de flexibilidade, tanto em relação a natureza do seu trabalho como sobre sua própria personalidade, já que flexibilizou suas crenças de que não precisava de ajuda de ninguém, abrindo uma possibilidade de aceitar ajuda da ex-esposa e consequentemente do ex-marido dela, e assim tocar seu novo projeto para frente. 

Estendendo a perspectiva para além do ofício de cozinheiro, a decisão de correr atrás daquilo que realmente traz gratificação foi uma oportunidade para Carl se aproximar do filho, se tornando um pai mais presente e afetivo. Durante o começo da nova caminhada, seu filho lhe ajudou a limpar e construir a infraestrutura do food truck, além de ajudar na preparação de alguns lanches, no atendimento dos pedidos e, principalmente, no “marketing” do novo empreendimento – nomeado de “El Jefe” – nas redes sociais. 

Em um breve momento de descanso, após trabalhar arduamente com o sucesso do novo food truck, Carl assiste a um vídeo produzido pelo filho que contém 1 segundo de cada dia do último mês. Nele, o personagem revive trechos importantes de sua trajetória recente pela ótica do filho, que sempre focou nos momentos em que estava se divertindo com o pai.  Essa experiência traz a Carl a percepção de que, para seguirmos nossos sonhos, não é preciso abandonar tudo  que também nos é importante. 

O que Carl fez pode ser caracterizado como um alinhamento da sua profissão aos seus valores pessoais, como liberdade e criatividade. Essa forma de transição de carreira pode ser entendida como uma mudança da sua atuação, sem necessariamente entrar em um campo totalmente novo. Muitas vezes, as pessoas são felizes na área em que escolheram trabalhar, mas por diversos fatores podem não se adequar a forma como elas exercem seu trabalho em determinado lugar.

Isso não significa que o sujeito não serviu para a empresa em que trabalhava, ou que seu tempo foi desperdiçado, mas apenas que alguns valores com o passar do tempo podem se tornar mais importantes que outros, e que as mudanças pessoais interferem na vida laboral, e vice-versa. 

Histórias como a de Carl servem como inspiração e exemplo para que mantenhamos nosso trabalho alinhado com nossos valores, sem esquecer das necessidades pessoais, como retorno financeiro e tempo de qualidade com nossos entes queridos. 


Referência:
Pinto, V. N., Ferreira, M. C., & Valentini, F. (2015). Evidências de Validade da Escala de Flexibilidade Psicológica no Trabalho em Amostras Brasileiras. Psico, 46 (3), 362-373. https://doi.org/10.15448/1980-8623.2015.3.18679

Autores
Helena Teles
Lucas Bedê
Soraya Costa